Descumprimento das metas

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De acordo com a Convenção da Diversidade Biológica o Brasil deveria armazenar até 2020, pelo menos 75% de suas espécies ameaçadas, porém a meta está longe de ser cumprida.

Grupo de pesquisa do Departamento de Botânica do ICB(Instituto de Ciências Biológicas -  Universidade Federal de Minas Gerais) verificou o desempenho do Brasil no cumprimento da meta e concluiu que esse processo se dá vagarosamente. Apenas 26 das cerca de duas mil espécies brasileiras que correm risco de desaparecer estão formalmente incluídas em bancos de sementes ou jardins botânicos no país. A conclusão está no artigo Gaps in seed banking are compromising the GSPC’s Target 8 in a megadiverse country, que o grupo publicou em março, na revista Biodiversity and Conservation.

"Isso corresponde a apenas 1,3% da meta nacional, restando mais de 73% para serem alcançados nos próximos quatro anos, que é o limite imposto pela Convenção da Diversidade Biológica. Para nossa surpresa, não detectamos aumento no número de espécies inseridas em bancos de sementes nos últimos tempos, o que indica clara falta de interesse e organização política por parte das instituições brasileiras", afirma o professor Fernando Silveira, do Departamento de Botânica, um dos autores do artigo.

A Convenção da Diversidade Biológica conta com mais de 200 países signatários. Seu objetivo é garantir o futuro da biodiversidade mundial, uma vez que desastres naturais e guerras põem em risco a sobrevivência de plantas ameaçadas. Para realizar o estudo, o grupo de pesquisadores consultou, por cerca de seis meses, bancos de dados sobre a flora ameaçada e jardins botânicos, verificando quais espécies já estavam armazenadas para proteção. Os dados foram fornecidos pelo Millennium Seed Bank, da Inglaterra, pelos jardins botânicos brasileiros e pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que mantém, em Brasília, o maior banco de sementes da América Latina.

"Constatamos que o Brasil já possui jardins botânicos e um bom banco de sementes – o da Embrapa, que conta com mais de 120 mil amostras – onde as espécies ameaçadas poderiam ser conservadas. O que falta é fazer as instituições de pesquisa brasileiras, como as universidades, se articularem para privilegiar, em seus estudos e coletas, as espécies ameaçadas", afirma o pesquisador Alberto Teixido, pós-doutorando no ICB e também autor do estudo.

Além da constatação de que o Brasil não deve bater a meta de conservação das espécies, o artigo projeta uma estimativa de como o objetivo poderia ser alcançado. Segundo Teixido, seriam necessários investimentos de R$ 10 milhões para que o país alcançasse o objetivo."O Brasil também precisa mudar algumas estratégias. Não basta colocar as sementes das espécies ameaçadas nos bancos, é preciso que grupos de pesquisa estudem suas condições de armazenamento e descubram quais devem ser priorizadas", sugere o pesquisador.

O estudo também apresenta diretrizes para adoção de políticas públicas imediatas que ajudem o país a preservar as espécies de plantas brasileiras em risco. "Nosso estudo pode contribuir para a formação de uma rede de conservação nacional. O Ministério do Meio Ambiente precisa planejar investimentos em longo prazo. Provavelmente não bateremos a meta de 2020, mas precisamos trabalhar em busca do seu cumprimento", afirma Alberto Teixido.

Estabilidade do ecossistema

O professor Fernando Silveira explica que os bancos de sementes funcionam como "Arcas de Noé", servindo de ferramenta de preservação das plantas localizadas em locais afetados por tragédias naturais e guerras. "Com o desastre de Mariana, por exemplo, algumas espécies ameaçadas podem ter-se perdido para sempre. Se tivessem sido depositadas em bancos, essas sementes não teriam desaparecido", argumenta.

Um exemplo a ser destacado, segundo o professor do ICB, é o do maior banco de sementes do mundo. Localizado na Noruega, reúne amostras de sementes de espécies vegetais importantes para a atividade econômica de vários países. Em 2015, a Síria, devastada por uma guerra civil, pediu a retirada de sementes de trigo, que eram plantadas em regiões do país destruídas durante os bombardeios.

"Foi a primeira vez que um país solicitou a retirada das sementes do banco norueguês, e, graças a ele, a Síria pôde replantar essa variedade de trigo. As 'Arcas de Noé' de sementes protegem as espécies, visto que muitas plantas têm genes com emprego não só na alimentação, mas também na produção de fármacos e na agricultura. Manter a biodiversidade de plantas disponíveis é essencial para a estabilidade do ecossistema", conclui Fernando Silveira.

Artigo: Gaps in seed banking are compromising the GSPC’s Target 8 in a megadiverse country

Autores: Alberto Lopez Teixido, Peter Toorop, Udayangani Liu, Guilherme Ribeiro, Lisieux Fuzessy, Tadeu Guerra e Fernando Augusto de Oliveira Silveira

Publicado na revista Biodiversity and Conservation, em março de 2017, e disponível em https://link.springer.com/article/10.1007/s10531-016-1267-

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